Revista Comunicação edição 267

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OPINIÃO

Relatos docentes: o “apagão” educacional!

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Os anos eram 2000, mais especificamente 2002, quando o tão sonhando ingresso na Faculdade de Letras aconteceu. A alegria da família, faixas e muitas comemorações. Mais uma professora numa família apaixonada pela educação. Dois dias intensos de vestibular de verão, uma turma de mais de 50 alunos e a rotina de trabalhar o dia todo e, à noite, viajar até Passo Fundo com muitos outros amigos em cursos distintos.

Ser professor era tão mágico que a disputa por vagas era enorme, não existiam bolsas ou outros incentivos financeiros, mas um amor além da conta que impedia que o cansaço ou as inúmeras dificuldades tirassem o brilho do sonho de ensinar.

Ouvi durante o curso que em 2050, faltariam professores, pensei demora tanto. O tempo passou, uma década depois, já no Mestrado, pesquisas apontavam que a falta seria sentida em 2040. Ainda assim parecia que se tinha tempo para buscar alternativas. Porém, em 2022, durante o último ano de Doutorado já se avizinhava o apagão docente para dali uma década, o alarme soou, mas talvez tarde demais. Em exatamente 20 anos, a História mudou e uma profissão, antes tão nobre e sublime, tornou-se escassa.

Atualmente, muitas Universidades não ofertam mais licenciatura, porque não se tem interessados. Não é possível mais fechar quadros do início do ano e passamos todo o período letivo realizando ajustes e encaixando quebra-cabeças para assistir os alunos.

Muitos são os fatores que levaram ao cenário atual: não se pode mais chamar a atenção em sala de aula, cobrar tema, encaminhar recados, exigir mais dedicação, houve uma grande inversão de valores e quem deveria ajudar o professor é quem mais agride, ataca, insulta. Além da sobrecarga burocrática, depara-se com a insensibilidade de quem nunca esteve em sala de aula, mas se julga no direito de opinar.

Há mais de duas décadas atuando em sala de aula e, atualmente, exercendo cargo de gestão não consigo me esquivar do impacto que a falta de professores vai trazer aos municípios, estados, país, pois não existe forma de substituir a pessoa que faz tudo com amor e ensina todos os dias para quem será o futuro da sociedade.

Não consigo ficar estagnada, sem me mobilizar, para incutir em mais e mais pessoas, que foram alunos ou não, o quanto ser professor é mágico, porque mudamos vidas. Também é importante frisar que o apagão não se restringe à sala de aula, mas a todas as instâncias que envolvem a educação diária: secretarias, refeitórios, manutenção escolar, limpeza, segurança, monitoria...

Um sonho de infância, talvez o mais significativo, sempre foi em ser professora e receber este nome. As brincadeiras de escolinha com as bonecas tornaram-se realidade. Hoje sou professora e muito feliz e realizada na profissão que escolhe desempenhar durante a minha jornada.

Em 2010, ingressei na Universidade de Passo Fundo (UPF), através de escrita da redação, modalidade de vestibular na época. A rotina era intensa, trabalhar durante o dia e estudar a noite, mas o desejo era maior que todas as adversidades encontradas.

Com o passar do tempo à forma de ingresso tornou-se mais fácil e acessível, porém hoje não há mais a mesma adesão aos cursos de licenciaturas. Muitos são os fatores que levam ao distanciamento da Educação.

O contraponto entre quase uma década, no início de ambas as carreiras das profissionais é um divisor de águas entre o sonho de ser professora e a realidade de vivencia em sala de aula: antes buscas intensas, hoje a escassez. Ser professor é muito mais que ensinar matérias. É despertar sonhos, incentivar a curiosidade, é despertar uma nação para o futuro.

Nenhuma sociedade resiste ao apagão dos fortes que deixaram um lindo legado, mas sabem que é tempo de deixar a arena de luta. Ser professor tornou-se resistência, abnegação, algo que somente um amor maior pode explicar. Que a sociedade possa refletir que a escola é lugar de acolhimento e o papel do professor é repassar conteúdo, mas que a educação, algo tão primordial, vem de casa, do seio familiar.

Que o apagão dos professores sirva de alerta a todos que nunca valorizaram quem conduz o futuro da nação dentro do chão de sala de aula, pois o alerta não foi ouvido há tempo e agora o futuro será de incertezas.

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